- Escritórios de advocacia baseados na Flórida registram explosão de contatos ao longo da segunda-feira pós-votação
- Busca principal é por visto de investidor e de profissional com altas habilidades; tendência é comum após eleições
Nova York
Logo após a notícia da reeleição do presidente Lula (PT), o movimento de brasileiros querendo emigrar para os Estados Unidos disparou, de acordo com escritórios de advocacia especializados no tema ouvidos pela reportagem.
A Piquet Law Firm, uma das mais conhecidas de Miami, na Flórida, recebeu 700 consultas de potenciais novos clientes no decorrer da segunda-feira (27), diz à Folha seu fundador, Alexandre Piquet. O fluxo normal do escritório é receber de 500 a 600 consultas por mês.
A Bicalho Legal Consulting, baseada em Orlando, também na Flórida, recebeu um número parecido, de 643 avaliações somente na segunda-feira. A média diária normal do escritório, diz o fundador Vinícius Bicalho, é de 20 novos contatos para prospectar o serviço.
Ambos os advogados dizem que esse tem sido um movimento natural nos períodos pós-eleitorais no Brasil pelo menos desde a eleição de 2014, que opôs a presidente Dilma Rousseff (PT) ao senador Aécio Neves (PSDB). Na eleição de 2022, quando Lula (PT) derrotou Jair Bolsonaro (PL), algo semelhante ocorreu, mas nunca como desta vez.
Bicalho afirma observar entre os relatos das famílias não apenas uma diferença política em relação ao projeto eleito para o Brasil, mas insatisfação com a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ele diz que também houve disparada de consultas em setembro, no dia seguinte ao julgamento sobre a possível abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes por suposto envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que acabou sendo adiado após um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Os brasileiros que buscam esses escritórios são, em especial, famílias com dinheiro para investir nos EUA, como no mercado imobiliário, ou profissionais altamente qualificados que querem migrar para o mercado de trabalho americano.
Os vistos mais buscados são o EB-5, que requer investimento de US$ 800 mil (R$ 4,2 milhões) em projetos locais para obter o visto e depois o green card; o EB-1A, para profissionais com habilidades extraordinárias, o EB-2 NIW, para habilidades excepcionais.
Os números que dispararam dizem respeito às buscas iniciais por esses escritórios, como quando o cliente preenche um questionário de avaliação para saber em quais casos (ou vistos) seu caso pode se enquadrar.
No caso da Piquet Law Firm, dos 700 contatos, 150 foram avaliados como com potencial para vistos. A Bicalho diz que a média do escritório é de 10% de clientes que seguem com seus processos.
Ainda que o governo de Donald Trump opere uma ampla campanha contra a imigração irregular no país, com deportações crescentes, inclusive para o Brasil, e tenha ampliado o controle da fronteira com o México, o lugar mais comum de entradas irregulares, esses escritórios explicam que não houve mudança no caso dos vistos para aqueles que migram de forma regular, sobretudo para os vistos de investimento.
Há hoje ao menos 2 milhões de brasileiros que vivem nos EUA, segundo os dados mais recentes do Itamaraty. Em sua maioria, eles estão na região de Miami e Orlando, ambos na Flórida; Boston, no estado de Massachusetts; e Nova York e Nova Jersey.
Tradicionalmente, a diáspora brasileira nos EUA vota mais na direita do que na esquerda. A tendência se repetiu nestas eleições: no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu 61,45% dos votos totais, ante 36,63% para Lula.
O filho de Jair Bolsonaro obteve maioria em Atlanta, Boston, Hartford, Houston, Miami e Orlando; já Lula liderou em Chicago, Los Angeles, Nova York, San Francisco e Washington. Foi um cenário semelhante ao do primeiro turno, com exceção de Nova York, onde Lula virou.