Rei vai usar todo o “soft power” da coroa britânica para tentar influenciar o presidente Trump e reduzir tensões entre Washington e Londres
A visita oficial aos Estados Unidos é uma rara oportunidade para o rei Charles III tentar mostrar que a monarquia britânica ainda possui alguma relevância e certo peso nas relações internacionais. As viagens reais são, normalmente, ocasiões cheias de pompa e simbolismo, mas com quase nenhuma importância política prática.
Os discursos tendem a ser formais, sem maior profundidade, e as manchetes acabam sendo dominadas por informações fúteis, como a descrição dos vestidos da rainha Camila e da primeira-dama anfitriã ou detalhes do cardápio oferecido à família real.
Esta pelo menos é a aposta do governo do primeiro-ministro Keir Starmer, que quer usar o “soft power” da monarquia para tentar reabrir canais, reduzir tensões e, de alguma forma, influenciar o presidente Donald Trump.
Mas o desafio é enorme.
A relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido atravessa um momento de enorme desgaste.
Analistas britânicos vêm apontando que os dois países enfrentam uma das fases mais delicadas de sua relação desde o fim do século XIX, um diagnóstico que já indica o tamanho da crise.
Há divergências importantes sobre a guerra no Oriente Médio, críticas abertas de Trump a Starmer e um ambiente de desconfiança pouco comum entre aliados historicamente tão próximos.
Tudo começou com a recusa do primeiro-ministro de permitir que bases britânicas fossem utilizadas para lançar ataques contra o Irã na guerra do Oriente Médio. E piorou quando membros do governo em Londres chegaram a questionar a legalidade dos ataques de Israel e dos Estados Unidos.
O ápice aconteceu quando Starmer, assim como vários outros líderes europeus, se recusou a oferecer ajuda da Otan aos militares norte-americanos para tentar liberar o estreito de Ormuz.
Peso político da viagem
Além desses desentendimentos, a visita carrega outros riscos de constrangimento político e simbólico.
A monarquia britânica enfrenta questionamentos internos sobre sua relevância e temas sensíveis como o envolvimento de Andrew, o irmão do rei Charles III, no escândalo sexual envolvendo o ex-magnata financeiro Jeffrey Epstein, também vão gerar inevitáveis críticas indiretas a Charles.
Ou seja, o cenário está longe de ser confortável para o rei, ainda assim, há um fator que pode jogar a favor do Reino Unido.
Apesar da sua imprevisibilidade, Trump demonstra um padrão consistente de valorizar símbolos de poder e hierarquia. Nesse contexto, a presença do rei Charles III em Washington pode, sim, funcionar como um instrumento de aproximação.
Trump já demonstrou, no passado, respeito pela monarquia, especialmente pela figura da rainha Elizabeth II. Chegou, também, a chamar Charles de “um grande homem”, afirmando que conhece o monarca há décadas.
Existe, portanto, a expectativa de que esse tipo de relação pessoal e simbólica possa de fato influenciar o presidente a, no mínimo, reduzir as críticas a certas instituições do Reino Unido, como os militares.
Mas isso, evidentemente, não resolve todas as divergências entre os dois países.
Até porque essas tensões não são inéditas. Estados Unidos e Reino Unido já enfrentaram, ao longo das últimas décadas, diferentes momentos de atrito em temas comerciais, militares e diplomáticos.
O que torna este momento diferente é o peso político atribuído à visita pelos dois lados.
Charles foi criado por décadas para assumir o trono e os seus desafios. Agora ele vai ter que usar todas as suas credenciais e algum possível charme pessoal para tentar reaproximar os dois aliados.
Se ele conseguir resultados positivos, o episódio pode reforçar a ideia de que a monarquia britânica continua sendo um ativo relevante, no mínimo, de “soft power” para uso em certos casos de política externa.
Caso contrário, tende a alimentar o argumento de que seu papel político é cada vez mais limitado e nada além de simbólico.