Moradores protestam e vão à justiça contra valores altos nas contas de água

Moradores do Jardim Silvina reclamam do valor altíssimo nas contas de água.

Uma família que paga em média R$ 110 mensais de conta de água num determinado dia recebe uma conta da Sabesp cobrando R$ 23 mil. Um condomínio com 180 apartamentos, cuja conta de água variava em torno dos R$ 6 mil mensais, passa a receber conta de R$ 371 mil e como esses diversos outros casos tem tirado o sono dos moradores da região, alguns até já desistiram de tratar com a companhia e levaram a demanda para a Justiça. A maioria do casos está concentrada no Jardim Silvina, em São Bernardo. A Sabesp admitiu erro em ligações e emitiu novas contas.

Moradores do Condomínio Caminho de Luz, no bairro Jardim Silvina, em São Bernardo, são os que têm uma conta de R$ 371 mil para dividir. Segundo André, síndico do prédio, a conta média era de R$ 6 mil o que dava cerca de R$ 45 por morador, até que em abril a conta subiu para R$ 8 mil e a conta que vencerá no próximo dia 20 chega aos R$ 371.891,80. O síndico diz que abriu protocolo na Sabesp e que este está em análise há uma semana.

Conta de água do Condomínio Caminho de Luz, com valor de R$ 371 mil, quando a média de contas era de R$ 6 mil. (Foto: Reprodução Viva ABC)

Moradores do condomínio vizinho ao Caminho de Luz, o Quadra do Céu, também vivem o mesmo drama. Moradora conta que a conta normal ficaria em torno de R$ 11 mil, mas o condomínio recebeu R$ 303 mil para pagar este mês. A moradora diz que a Sabesp disse que os moradores dos prédios deveriam contratar um perito para atestar que não há vazamentos e só depois disso a Sabesp enviaria seus técnicos para verificar se não há problemas na medição.

Cansado de tentar uma solução com a Sabesp, Bruno Leonardo Batista, morador da rua Alessandro Bernardello, no bairro Alves Dias, também em São Bernardo, disse que judicializar a questão foi o remédio, já que não obteve uma solução para a conta de R$ 23.810,13 que recebeu sobre o consumo de água na sua casa. A média das contas de água na casa de Batista é de R$ 70. “O mês que pagamos mais foi R$ 100. Na casa são só dois adultos e duas crianças”, explica.

Priscila Farias, cujos pais também moram no Jardim Silvina, reclama que na casa onde só vive o casal de idosos, costumava pagar cerca de R$ 120 por mês e recebeu uma conta de R$ 800. Ela diz ainda que não foi identificado nenhum vazamento na casa. “Como um casal de aposentados consegue pagar uma conta dessas?”, disse.

Ranking

No ranking de atendimentos do ProconSP, a Sabesp liderou o volume de queixas no ano passado com 6.879 reclamações no Estado, mais de 1,5 mil a mais do que a Enel que é segundo lugar no ranking.

Passado metade de 2026, a situação não mudou. Segundo o especialista em direito do consumidor, ex-diretor do Procon Regional e atualmente integrante do Procon de São Bernardo, Victor Paulo Ramuno, o volume de queixas só cresceu. Hoje, segundo ele 1/4 do total de atendimento do Procon de São Bernardo é relacionado a problemas com a Sabesp. “O volume de queixas é tão grande que pessoal técnico está reforçando o atendimento no balcão. Logo o nosso atendimento vai voltar a ser feito no Poupatempo, por conta dessa demanda”, explica.

Para Ramuno é totalmente descabida a postura da Sabesp em indicar que o consumidor contrate perito caça vazamentos para emitir laudo para que, somente após isso, a companhia de água reveja os valores lançados na conta. “É uma prática abusiva sem dúvida, esse não é um ônus do consumidor ainda mais se tratando de um serviço essencial. Temos casos de moradores arcando com reparos para fora do meio fio, que é responsabilidade da Sabesp. O que a gente nota na maioria dos atendimentos é que as pessoas não mudaram seu perfil de consumo, não visualizaram vazamentos, mas as contas chegam altas e a Sabesp demora para fazer a verificação, só essa demora já lesa o consumidor, que está amparado pelo artigo 22 do Código de Defesa do Consumidor”, diz.

 direito do consumidor, o mesmo artigo 22 do CDC garante a prestação do serviço e que o mesmo não pode ser interrompido bruscamente por se tratar de serviço essencial. “A Sabesp também está sendo muito dura nas negociações, se recusando a parcelar dívidas na fatura e fazendo parcelamentos apenas no cartão de crédito quando muitas pessoas de baixa renda sequer tem o acesso a esse meio de pagamento. Também identificamos a retirada do benefício de tarifa social de muitas pessoas sem justificativa”, lista Ramuno.

Muitos casos, como o do morador do bairro Alves Dias e tornam demandas judiciais. Victor Paulo Ramuno explica que o Procon estabelece o canal para a negociação baseado no CDC, porém em muitos casos a demanda vai mesmo para a Justiça. “A gente tem encaminhado para os juizados especiais e também para as defensorias públicas, quando não há acordo”, diz.

O órgão municipal atende na rua Nicolau Filizola, 100, no Centro, dentro do Poupatempo. Os contatos disponíveis são o telefone (11) 2630-9990 ou 2630-9992, além do 0800-77-08-156, este último exclusivo para agendamento. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h30 às 11h30, mediante agendamento prévio, que deve ser realizado pelo site https://acesse.one/guiadeservicos. O Procon Estadual também atende consumidores de forma online no site: https://www.procon.sp.gov.br/espaco-consumidor/

Retorno

Após contato do RD com a Sabesp, levando a demanda dos moradores, Bruno Leonardo Batista, que mora no bairro Alves Dias, recebeu resposta da companhia de água com ajuste no valor da conta, que era de R$ 23.810,13 para R$ 426,00.

Em nota a Sabesp diz que monitora as reclamações e que adota providências se identificadas inconsistências. A seguir íntegra da companhia:

“A Sabesp informa que monitora continuamente os processos de leitura, medição e faturamento e que todas as reclamações relacionadas a consumo atípico ou divergências em contas de água são analisadas de forma individualizada por suas equipes técnicas. Quando identificada qualquer inconsistência, seja em leitura, faturamento ou operação dos sistemas, a Companhia adota as medidas necessárias para correção dos valores cobrados e orientação aos clientes.

Em relação aos casos citados pelo RD, a Sabesp esclarece que as contas dos condomínios Caminho da Lua e Manacá já foram revisadas e reformuladas após a constatação de falha técnica no processo de faturamento.

No caso da cliente Vanessa Clerc Zanetti dos Santos, todas as faturas questionadas foram revisadas. A conta de fevereiro foi zerada e a fatura de março de 2026, inicialmente emitida pela média de consumo, foi corrigida para R$ 349,20 após a apresentação da leitura real do hidrômetro.

A interrupção do abastecimento ocorreu em razão da existência de outros débitos pendentes. Atualmente, a cliente possui quatro faturas em aberto. A Companhia segue em contato com a cliente para encontrar a melhor solução para a regularização da situação.

Sobre o imóvel localizado na rua Alessandro Bernardello, 101, em São Bernardo, a Sabesp informa que o consumo retornou aos níveis habituais a partir de janeiro de 2026. Diante disso, foi realizada a revisão das contas com aplicação da média de consumo no período de outubro de 2025 a janeiro de 2026. O cliente recebeu os esclarecimentos e as faturas corrigidas.

A Sabesp permanece à disposição dos clientes por seus canais oficiais de atendimento. Solicitações e ocorrências podem ser registradas pelo telefone 0800 055 0195, pelo WhatsApp (11) 3388-8000 ou pela Agência Virtual, disponível em www.sabesp.com.br”.

Ramuno diz que a prática de indicar ao consumidor que contrate perito particular é abusiva.

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