Com mais de 150 milhões de pedidos em um ano no iFood, o hambúrguer segue líder absoluto do delivery, mas vive uma transformação: menos excessos, mais técnica, ingredientes artesanais e consumidores atentos à qualidade
Poucos alimentos atravessaram tantas gerações quanto o hambúrguer. O que nasceu como refeição rápida virou fenômeno cultural, protagonista de tendências gastronômicas e símbolo de um mercado que não para de crescer no Brasil.
Hoje, o hambúrguer ocupa diferentes momentos da rotina: vai do almoço corrido ao encontro entre amigos no fim do dia, da madrugada pós festa ao delivery de domingo no sofá. E os números ajudam a explicar esse tamanho.
Segundo dados do iFood Tendências, hub de inteligência e dados da plataforma, o hambúrguer segue como o item mais consumido no aplicativo. Entre maio de 2025 e abril de 2026, foram mais de 150 milhões de pedidos entregues nas cerca de 230 mil hamburguerias cadastradas no iFood, crescimento superior a 15% em relação ao mesmo período anterior, quando foram registrados 130 milhões de pedidos.
O dado reforça não apenas a força do hambúrguer no delivery, mas também como ele deixou de ser um consumo ocasional para ocupar diferentes horários do dia.
Os brasileiros, aliás, estão criando um novo momento para o hambúrguer: o lanche da tarde. Segundo o levantamento, os pedidos nesse período cresceram mais de 46%, com pico às 17h. O almoço também avançou, registrando alta de 21% no período analisado, consolidando o sanduíche como alternativa rápida para a refeição do meio-dia.
Ainda assim, o jantar continua soberano. Mais de 80% dos pedidos de hambúrguer no iFood acontecem à noite, especialmente por volta das 20h, horário de pico absoluto na plataforma. Nem a madrugada escapa. Entre meia-noite e 5h, os pedidos cresceram 12%, impulsionados principalmente pelas noites de sábado e domingo.
Mas talvez a mudança mais interessante esteja menos na quantidade e mais na forma como o brasileiro passou a consumir hambúrguer.
urante anos, o setor viveu a era do exagero. Molhos fluorescentes, cheddar em cascata, bacon caramelizado, onion rings empilhadas e receitas criadas quase exclusivamente para viralizar dominaram cardápios e redes sociais.
Agora, aos poucos, muitas hamburguerias parecem caminhar na direção oposta.
O consumidor continua buscando indulgência, conforto e prazer, mas passou a olhar com mais atenção para qualidade, origem dos ingredientes e equilíbrio das receitas. Em vez de excesso de toppings e ingredientes ultraprocessados, cresce o interesse por blends rastreáveis, pães de fermentação natural, conservas artesanais e molhos produzidos dentro da própria cozinha.
É um movimento que parte do mercado já chama de “clean label burger”, tendência que aproxima o universo das hamburguerias de discussões antes restritas à alta gastronomia e ao setor de alimentação saudável.
“A busca hoje é por qualidade real e sabor limpo”, afirma Ana Cremonezi, chef do Fahrenheit. “O consumidor continua buscando prazer, mas com mais consciência sobre aquilo que está consumindo.”

Segundo ela, o hambúrguer clean label simplifica sem perder sabor. O blend é fresco, o pão é melhor executado, os molhos têm menos conservantes e os ingredientes passam a ser menos artificiais. “Quando o produto é realmente bom, não é preciso mascarar o sabor com excesso de elementos. O luxo hoje está mais na qualidade e no equilíbrio do que no exagero.”
Segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o setor de food service movimenta mais de R$ 230 bilhões por ano no Brasil, com as hamburguerias figurando entre os segmentos de maior crescimento.
Esse amadurecimento do mercado também aparece nas cozinhas. Na prática, maioneses industrializadas começam a perder espaço para versões feitas na casa. Conservas artesanais substituem produtos prontos. O cheddar ultraprocessado dá lugar a queijos maturados e blends mais equilibrados.
Até o pão passou a ocupar um papel mais técnico, com restaurantes investindo em fermentação natural e receitas autorais.
Em funcionamento desde 2004, a Lanchonete da Cidade acompanhou de perto a transformação do mercado brasileiro de hambúrgueres. “Desde o início priorizamos ingredientes de qualidade. A maionese sempre foi feita na casa e gostamos de utilizar queijos brasileiros”, explica Fernando Bonciani, gerente de gastronomia da marca.

A mudança também acompanha uma maturidade natural do setor. Depois de anos apostando quase exclusivamente no impacto visual, muitas casas perceberam que fidelização depende menos do “hambúrguer absurdo” e mais de consistência.
Os dados do delivery ajudam a reforçar essa leitura. Segundo o iFood, os mais pedidos são o clássico cheeseburger, e, em seguida X Salada.
“Acredito que hoje a procura esteja mais voltada para hambúrgueres tradicionais, com menos invenções e mais qualidade”, afirma Amílcar Azevedo, chef do Nou Burguer. “A ideia é valorizar ingredientes bem executados, sabores mais autênticos e menos excessos.”
Essa valorização de receitas mais simples fortalece preparos em que técnica e ingrediente aparecem com mais clareza. A fumaça da brasa, o ponto correto da carne e acompanhamentos mais equilibrados ajudam a construir essa nova leitura do hambúrguer artesanal.
A mudança não significa necessariamente um hambúrguer “fitness”. O consumidor de 2026 continua buscando conforto, indulgência e prazer. A diferença é que cresce o interesse por versões consideradas mais honestas: menos artificiais, menos pesadas e mais equilibradas.
“O nosso burger mais vendido continua sendo o clássico”, conta Bonciani, da Lanchonete da Cidade. “Ele traz justamente essa sensação de conforto que o cliente busca, mas sem exageros.”
Ainda existem burgers gigantes, recheados e criados para viralizar. Mas a estética do exagero perde espaço para hamburguerias mais interessadas em técnica, equilíbrio e identidade.
Quando o ingrediente é bom, parece haver menos necessidade de esconder sabores atrás de excessos.
Confira os 10 estados que mais pedem hambúrguer na plataforma do iFood:
- São Paulo
- Minas Gerais
- Rio de Janeiro
- Paraná
- Rio Grande do Sul
- Santa Catarina
- Goiás
- Bahia
- Pernambuco
- Distrito Federal