Desde o início dos registros no Disque 100, plataforma do Ministério dos Direitos Humanos, em 2023, número de notificações cresceu de 233 para 356
O número de denúncias de violação aos direitos dos autistas no Grande ABC cresceu 53%, de acordo com dados do Disque 100, plataforma do Ministério dos Direitos Humanos. Desde o início dos registros, em 2023, as notificações das sete cidades saltaram de 233 para 356 em 2025.
Para o especialista em direitos PcD (Pessoa com Deficiência), Thiago Daniel, diversos fatores justificam o crescimento, como o desrespeito aos direitos na prática e o aumento da conscientização da população. “Quando o número de denúncias cresce, isso não significa só que o problema aumentou. Pode significar, principalmente, que o silêncio diminuiu. E isso é fundamental, porque direito que não é conhecido, vira favor. E favor pode ser negado, direito não”, pontua.
Para conscientizar a sociedade sobre o tema, a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu a campanha mundial Abril Azul, que visa educar a população, reduzir o preconceito, promover a inclusão e defender os direitos das pessoas. “Quando a sociedade não compreende a pessoa com deficiência nem entende o que é o autismo, tende a interpretar comportamentos como falta de educação ou exagero. A informação é fundamental para combater a discriminação”, ressalta Daniel.
A maior parte das cidades apresentou crescente de denúncias de um ano para outro. Santo André, por exemplo, registrou aumento de 130% de 2023 (36) para 2024 (83) e de mais 30% para o ano passado (108). Em São Bernardo, o crescimento foi, respectivamente, de 57% e 42%.
Diadema também teve salto relevante, de 54% e 223%, conforme mostra a tabela ao lado. Mauá destoa do comportamento dos municípios do Grande ABC e registrou grande salto de 2023 (126) para o ano seguinte (527) e seguiu com queda em 2025 (52). Apesar de discrepantes, os dados foram confirmados pelo Ministério dos Direitos Humanos, que não soube justificar a oscilação.
Pai de Mariano Soares Almeida, 7 anos, diagnosticado com TEA ( Transtorno do Espectro Autista), o educador social de Mauá Thiago Almeida, 39, também é autista e acredita que a sociedade ainda conhece pouco sobre deficiência invisível. “Meu filho tinha apenas 4 anos quando uma situação nos marcou profundamente. Estacionei o carro em uma vaga preferencial destinada a pessoas com deficiência. Era um gesto absolutamente legítimo, amparado por direito, mas dois rapazes que estavam próximos começaram a me hostilizar de forma agressiva”, conta.
Almeida lembra que não foi suficiente explicar que Mariano possui uma deficiência invisível, conforme indicava seu colar de identificação. “Com a alteração de vozes e o ambiente hostil, ele entrou em crise. Além da dor da humilhação, veio também o sofrimento de ver meu filho viver uma violência que nem podia compreender totalmente, mas sentia intensamente”, descreve.
O educador decidiu transformar o mal-estar em ação e passou a atuar em prol da causa, por meio do movimento TEAção, um coletivo de acolhimento e mobilização voltado para as famílias atípicas e pessoas no espectro na região.
O vereador de São Bernardo Julinho Fuzari (Republicanos) afirma que muitos direitos estão sendo desrespeitados em diversas áreas, inclusive pelo setor privado. “Há uma luta contra os planos de saúde, que relutam em cumprir a lei. Eles buscam mecanismos para driblar e não dar as quantidades de horas necessárias de terapias. Precisamos avançar e tornar o autismo uma questão de política pública nacional”, avalia.