Santuário dentro de caverna: conheça tradição de três séculos que reúne mais de 500 mil fiéis em cidade na Bahia

Santuário de Bom Jesus da Lapa fica dentro de caverna e conta com mais de 10 grutas. Romaria foi iniciada no século 18 e teve influência do Rio São Francisco.

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, a Romaria de Bom Jesus da Lapa, no oeste do estado, reúne centenas de milhares de fiéis todos os anos. Diferente de outras celebrações religiosas Brasil afora, esta tem uma peculiaridade: os fiéis fazem peregrinações à uma caverna.

A história das peregrinações à caverna começou há mais de três séculos, em 1691, após um português eremita se instalar no local. Em 2026, a romaria completa 335 anos.

Como uma caverna se tornou o centro de uma das maiores romarias do Brasil e detalha como é o interior do templo religioso.

Um português eremita e o Rio São Francisco

Santuário Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia — Foto: Acervo Santuário

Santuário Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia — Foto: Acervo Santuário

De acordo com o Padre Roque Silva, reitor do Santuário de Bom Jesus da Lapa, o português Francisco de Mendonça Mar foi preso em Salvador e, após ser solto, decidiu dedicar a vida a fé e se tornar um eremita.

Em suas andanças, Francisco chegou até a caverna com uma estampa de Nossa Senhora da Soledade, de quem era devoto, e um crucifixo do Bom Jesus. A partir disso, ele fez da gruta um local de devoção.

“O pessoal da região começou a chamá-lo de monge e frei, por causa da roupa que ele usava. Depois de alguns anos, ele foi levado para Salvador, onde estudou, se tornou padre e virou o primeiro capelão do santuário”, contou.

Caverna é repleta de grutas dedicadas a entidades da Igreja Católica 

Além da fé de Francisco de Mendonça Mar, a devoção ao Bom Jesus da Lapa está associada ao trânsito de embarcações no Rio São Francisco, que corta a cidade.

Segundo a historiadora e professora da Faculdade do Oeste da Bahia, Napoliana Pereira Santana, o rio não levava só pessoas e mercadorias, mas também as notícias, que eram majoritariamente transmitidas na oralidade. Assim, a fé no Bom Jesus se espalhou para diferentes regiões.

“Historicamente há registros de circulação de diferentes povos, de diferentes freguesias, que viajavam até a Freguesia de Santo Antônio do Urubu de Cima (como era chamada a atual cidade de Bom Jesus da Lapa no século 18) por causa da devoção ao Bom Jesus”, contou.

Uma carta enviada para Portugal em 1717 faz citação a romaria e, em 1888, ano da abolição da escravatura no Brasil, registros comprovam que a festa já era considerada grande. “Houve uma romaria chamada ‘Romaria dos Pretos’, feita por africanos escravizados e recém libertos, que já foi considerada de grandes proporções”, disse a historiadora.

Em 2025, a romaria reuniu 600 mil pessoas de diferentes partes da Bahia, do Brasil e do mundo.

Os espaços da caverna

Sala dos Milagres, no Santuário Bom Jesus da Lapa — Foto: Santuário Bom Jesus da Lapa

Sala dos Milagres, no Santuário Bom Jesus da Lapa — Foto: Santuário Bom Jesus da Lapa

A caverna é uma formação rochosa calcária e os santuários que ficam dentro dela são igrejas naturais.

O espaço é formado por 16 grutas, sendo nove delas internas. Os espaços fazem referências a diversos santos e figuras sagradas do catolicismo, como:

  1. Gruta do Bom Jesus da Lapa
  2. Gruta de Nossa Senhora Aparecida
  3. Gruta do Santíssimo Sacramento
  4. Gruta de Nossa Senhora da Soledade
  5. Gruta de Santa Luzia
  6. Gruta de São Geraldo Majella
  7. Gruta de Nossa Senhora das Graças
  8. Gruta de Belém
  9. Gruta de São Francisco de Assis
  10. Gruta da Água de Milagres
  11. Sala das Promessas

Um dos espaços mais emblemáticos da caverna é a Gruta dos Milagres. Segundo o Padre Roque Silva, o espaço demonstra a relação das promessas dos fiéis com o Bom Jesus.

“É um local repleto de fotografias, diplomas, instrumentos musicais. Quem recebeu a cura de uma perna, por exemplo, costuma trazer uma perna de cera”, explicou.

Para a auxiliar odontológica, Thaise Lima, de 37 anos, a fé no Bom Jesus foi responsável por operar um milagre. Diagnosticada com leucemia em 2022, ela passou por 10 meses de tratamentos intensos de quimioterapia no Hospital Aristides Maltez, em Salvador. Durante o processo, acompanhava as missas do Santuário do Bom Jesus da Lapa pelo celular.

Thaise foi de joelhos até a imagem do Bom Jesus para agradecer a cura — Foto: Arquivo Pessoal

Thaise foi de joelhos até a imagem do Bom Jesus para agradecer a cura — Foto: Arquivo Pessoal

Em 2024, os médicos indicaram um transplante de medula óssea. Antes de viajar para São Paulo para fazer uma bateria de exames, Thaise foi até o santuário e fez uma promessa: se o Bom Jesus lhe concedesse a cura sem a necessidade do transplante, voltaria após um ano para agradecer.

“Em abril de 2025, viajei para fazer os exames pré-transplante e em agosto veio a notícia: os resultados estavam excelentes e o transplante foi cancelado”, contou.

Em 2026, Thaise teve uma notícia ainda mais emocionante: a remissão total do câncer.

A baiana voltou ao santuário para agradecer a graça alcançada e foi, de joelhos, até a imagem do Bom Jesus.

Thaise, as filhas e o marido no Santuário de Bom Jesus da Lapa — Foto: Arquivo Pessoal

Thaise, as filhas e o marido no Santuário de Bom Jesus da Lapa — Foto: Arquivo Pessoal

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